statement

PT/ENG

♦PT

O conjunto de minha obra é um vasto no que se refere as técnicas de execução. O que liga uma produção a outra é o tema da migração e suas consequências sociais. Tenho uma pesquisa com imigrantes realizada com fotoperformance, tendo esta se desdobrado em outras que recriam novos personagens. Por esta razão, pode-se afirmar que meu trabalho é resultado de um processo que desencadeia distintos caminhos que levam a um mesmo ponto. Nas séries de fotoperformance, por exemplo, atuei interpretando personagens por mim criados. A exemplo, a personagem que chamo de abissal é uma metáfora de toda a criatura vinda do mar, do mais profundo e obscuro oceano. Aquela criatura feia e da escuridão, emerge em minha obra como um ser mítico, surge quase como uma lenda. Foi daí­ que desenvolvi o projeto Deriva, que se destinou a levar a criatura abissal pelo mundo. Antes da criatura abissal, eu já havia iniciado uma longa série intitulada “das intimidades do mar” que utiliza fotografias antigas, reproduções de daguerreotipos, manipulados com cera e desenho para narrar a história de uma espécie de Atlântida. Eu chamo essa Atlântida de Pasárgada, em referência ao poeta pernambucano, Manuel Bandeira. Dessas duas séries, surge uma outra intitulada Khôra. De forma mais midiática e política, nasce a personagem Judith que aparece entre imigrantes e refugiados espalhados pelo mundo. Ela aparece quase  sempre mascarada. Judith não tem rosto, não julga. Judith é como uma espécie de entidade que representa os povos em sua diversidade étnica. Ela aparece. Surge no entre e desaparece. Incomoda. Ela é o outro quase invisível, mas que tanto perturba: o imigrante, a mulher, o que se destaca pela diferença… As fotografias com Judith sempre são realizadas em contextos ligados a migração e, portanto, comumente pode surgir ao lado da personagem um imigrante em seu cotidiano ordinário. Khôra desencadeou outro projeto bastante importante neste processo criativo. Trata-se da série de videoartes Firefly. Esta série tem inspiração em estudos a partir da obra literária de Pier Pasolini. A visão de Pasolini sobre um novo totalitarismo sob  o qual o hipermaterialismo estava destruindo a cultura da Itália, agora pode ser encarada como uma brilhante antevisão do que aconteceria no mundo atual em geral com o advento da internet. O consumismo se converte em uma nova era e uma forma completamente nova de fascismo. Esta cultura de consumo da qual Pasolini se refere, é hoje responsável pela degradação do meio ambiente de tal modo radical que tem ameaçado o equilíbrio saudável de nossa existência. O desaparecimento dos vaga-lumes é explicado no artigo de Pasolini fazendo exatamente esta relação entre industrialização e consumismo, versos destruição de uma paisagem e não apenas, também de uma forma de viver e pensar. Era o fim de uma era, de uma cultura.  (…)“Nos primeiros anos da década de 60, por causa da poluição do ar, e, sobretudo, no campo, por causa da poluição da água (os rios azuis e os pequenos canais transparentes), começaram a desaparecer os vaga-lumes. O fenômeno foi fulminante e fulgurante. Depois de poucos anos os vaga-lumes desapareceram completamente. (Eles são, agora, uma lembrança muito dolorosa do passado: e um homem de idade, que tenha tal lembrança, não pode reconhecer nos novos jovens a sua própria juventude, e não pode mais ter as recordações maravilhosas daquele momento).”

Portanto, a série de videoartes  surgiu a partir do artigo “O vazio de poder na Itália” conhecido como o artigo dos vaga-lumes, publicado no “Corriere della Sera” no dia 1 de fevereiro de 1975. Este caminho faz sentido porque o vídeo  trata alegoricamente de resistência, sobrevivência e silêncio interpretados por mim. Crio situações de silenciosa angústia e impotência diante de realidades políticas e culturais que ultrapassam a minha capacidade de ação. Os dois vídeos que compõem até o momento a série, não possuem diálogo e a personagem tenta comunicar, mas algo sempre a impede. A sensação de impotência é evidente nos dois vídeos.

Por retomar sempre a analogia entre o desaparecimento dos vaga-lumes com uma série de questões levantadas por Pasolini e que foram expostas acima, conectei um fato relativamente recente com a minha pesquisa. A extinção de uma subespécie de rinocerontes. Em 19 de março de 2018, morre o ultimo macho da subespécie de rinocerontes do norte, de nome Sudão. Era da subespécie dos brancos do norte, há também do Sul, para além de outras subespécies como os negros, que são menores, Rinocerontes de Java e Sumatra. O mais conhecido é o indiano, por ter a aparência de vestir uma armadura medieval. Todos as espécies estão na linha de extinção, isto porque sofrem com a caça predatória dos humanos, que os matam em busca de seu chifre. O motivo que levou tais animais a serem ameaçados de extinção ou mesmo extintos é somente o consumo. A forma de processar e compreender este século vai por vias de se entender como funciona uma cultura que não tem limites éticos ou empatia quando a motivação é o desejo e o desejo é motivado pelo ter ou pela criação de uma falsa necessidade de ter. Desta forma, transformo o vaga-lume de Pasolini em um Sudão, um imenso rinoceronte indefeso diante de uma sociedade liderada por um sentido de vazio de poder que justo acontece, no advento da “morte” dos vaga-lumes. Os parâmetros de afeto e empatia desapareceram, mortes são números e se importantes é porque são seletivas em sua importância. Nesta seleção de importantes, os animais, as plantas, o ar, os rios e o mar nada mais são que moedas de troca e, portanto, de consumo. Consumimos absolutamente tudo e nada tem efetivamente valor. A série Onde está Sudão? pergunta sobre o que se perdeu antes da morte dos vaga-lumes, antes do vazio de poder haver se instalado completamente em nossos lares. O Sudão, assim era chamado, era um imenso animal que pesava mais de duas toneladas, mas não era suficientemente forte para deter o irrefreável desejo enleado de vazio que grande parte da humanidade tem hoje dentro de si.

♦ENG

My work as a whole is vast in terms of execution techniques. What links one production to another is the issue of migration and its social consequences. I have a research with immigrants carried out with photoperformance, which has unfolded in others that recreate new characters. For this reason, it can be said that my work is the result of a process that triggers different paths that lead to the same point. In the photoperformance series, for example, I acted playing characters I created. For instance, the character I call abissal (abyssal) is a metaphor for every creature from the sea, from the deepest and darkest ocean. That ugly creature, coming from the darkness, emerges in my work as a mythical being, appears almost like a legend. That’s the starting point for the Deriva project , which was designed to take the abyssal creature around the world. Before the abyssal creature, I had already started a long series entitled “of the intimacies of the sea” that uses old photographs, reproductions of daguerreotypes, manipulated with wax and drawings to tell the story of a kind of Atlantis. I call this Atlantis Pasárgada, in reference to the Brazilian poet Manuel Bandeira. From these two series, comes another one named Khôra. In a more mediatic and political way, emerges the character Judith, who appears among immigrants and refugees around the world . She almost always appears masked. Judith has no face, she doesn’t judge. Judith is like a kind of entity that represents people in their ethnic diversity. She appears. She materializes in between and disappears. She bothers. She is the other, almost invisible, but so disturbing: the immigrant, the woman, the one who stands out for being different… The photographs with Judith are always taken in contexts related to migration and, therefore, often alongside the character an immigrant may appear in their ordinary daily life. Khôra sparked another very important project in this creative process. The video art  series Firefly. This series is inspired by studies based on the literary work of Pier Pasolini. Pasolini’s view on a new totalitarianism under which hypermaterialism was destroying the culture of Italy, can now be seen as a brilliant preview of what would happen worldwide today with the advent of the internet. Consumerism becomes a new era and a completely new form of fascism. This consumer culture that Pasolini refers to is responsible today for the degradation of the environment in such a radical way that it has threatened the healthy balance of our existence. The disappearance of fireflies is explained in Pasolini’s article making exactly this correlation between industrialization and consumerism, versus destruction of a landscape and not only that, but also a way of living and thinking. It was the end of an era, of a culture. (…) “In the early 1960s, with the pollution of the air, and above all in the countryside with the pollution of the water (the blue streams and the transparent canals), the fireflies began to disappear. The phenomenon was overwhelming and dazzling. After a few years they were not there any more. (They are now a very painful reminder of the past; and an old man, who has such a memory, cannot recognize his own youth in the face of today’s youngsters, and can no longer have the wonderful memories of that moment). ” 1   Therefore, the video art series emerged from the article “The Power Void in Italy” known as the article of the fireflies, published in the “Corriere della Sera” on February 1, 1975. This path makes sense because the video allegorically deals with resistance, survival and silence interpreted by me. I create situations of silent distress and impotence in the face of political and cultural realities that surpass my capacity for action. The two videos that so far  make up the series have no dialogue and the character tries to communicate, but something always prevents her. The feeling of helplessness is evident in both videos.    Since I always return to the analogy between the disappearance of fireflies with a series of questions raised by Pasolini and which were exposed above, I connected a relatively recent fact with my research. The extinction of a subspecies of rhinos. On March 19, 2018, the last male of the northern rhino subspecies, named Sudan, dies. It was from the subspecies of northern whites, there is also the southern, in addition to other subspecies such as blacks, which are smaller, and rhinos from Java and Sumatra. The most famous is the Indian, for seeming to be wearing a medieval armor. All species are endangered because they suffer from the predatory hunting by humans, who kill them interested in their horn. The reason that led these animals to be endangered or even extinct is solely consumption. The way to process and understand this century goes through ways of understanding how a culture that has no ethical limits or empathy works when the motivation is the desire and the desire is motivated by having or creating a false need to have . In this way, I transform Pasolini’s firefly into Sudan, a huge and helpless rhino facing a society led by a sense of power void that just happens, in the advent of the “death” of fireflies. The parameters of affection and empathy have disappeared, deaths are numbers and if they are important it is because they are selective in their importance. In this selection of importance, animals, plants, air, rivers and the sea are nothing more than currencies for trade and, therefore, for consumption. We consume absolutely everything and nothing really has value. The series Onde está Sudão? (Where is Sudan?) questions about what was lost before the death of the fireflies, before the power void been completely installed in our homes. Sudan, as it was called, was a huge animal that weighed more than two tons, but it was not strong enough to stop the irrepressible desire laced with emptiness that a large part of humanity has within themselves today.

  1. Pasolini, Pier. O vazio do poder na Itália, “Corriere della Sera”. Milão, 1975.

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