khora art project

♦ENG

Often intersecting fiction and reality, the work of artist Maíra Ortins takes on Migration and the Diaspora as conditions for a suspended sense of Identity. In this sense, her work delves into the political, social, and ecological facets of sea crossings, past and present, through an interdisciplinary practice that includes photography, painting, and performance.

The presented series, Khôra, is a photo performance project developed between 2015 and 2020, among communities of immigrants, refugees, and other socially excluded groups from Barcelona and Belgrade, Senador Pompeu, Redenção, and several boroughs on the outskirts of Fortaleza, Brazil.

Being a migrant often carries a notion of identity detached from the sense of belonging to a place. This privation or non-identification with a territory, that may characterize the migrant person, results in a state of permanent suspension (reinforced by the fact that the migrant subject is often placed in refugee camps), thus making him an easy target of prejudice, and social exclusion, deprived of basic citizenship rights. Eventually, this alien status can result in the denial of the subject’s humanity.

It is in the lived experience of this state of gap that the artist has placed Khôra. Borrowed from Philosophy, this term is originally found in Plato’s Timaeus, where Khôra is defined as a space of dialogue, a suspended temporality that stems from the dialectics between the material and the intelligible, through which all passes but nothing is retained. Jacques Derrida uses the term in the sense of otherness, a “place to be”; and Martin Heidegger posits it as an “intrinsic brightness”, in which the being occurs or takes place.

As a concept, Khôra is, thus, deeply rooted in the idea of impermanence and alterity: a time and a space of transit, both uncharacteristic and depersonalized: a Non-place.

Maíra Ortins’ photography depicts immigrants and refugees of different nationalities, photographed in their work or recreation environments, accompanied by a masked character. In other images, we find this character surrounded by ruins, spaces originally built to detain migrants from Brazil’s countryside, strangers in their land. Here, the character makes apparent what is absent: the bodies, the voices, and the place of those who have been there.

This masked character is Judith, an archetypal figure created by the artist, stemming from the association between the sea crossing and the crossing of the Underworld River of Hades, in ancient Greek mythology. Judith is, in a way, Charon, the boatman who guides the souls through the rivers Styx and Acheron, but also the human trafficker, who smuggles human lives into Europe. However, the destiny that awaits them is not hell, but the consequences of international Necropolitics.

Using masks that refer to cultures other than those of the represented communities, Judith becomes, herself, a stranger in the crowd, thus inverting the usual sense of “alien” that these persons are used to in their day-to-day lives: this reframing causes, ultimately, a new sense of identity with the place.

 Jorge Catarino,

Critical art, Lisbon, 2022.

 

Pirambu, Fortaleza, 2020.
Granja Lisboa, Fortaleza, 2020.
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Redenção, Ceará.Estudantes angolanos 2018
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Redenção, Ceará.Estudantes angolanos 2018
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Servia Belgrado, 2015, refugiados sírios.
Judith com refugiados síriosbaixa , 2015
Sérvia Belgrado, 2015, refugiados sírios.

 

♦PT

Cruzando frequentemente o real com o ficcional, o trabalho de Maíra Ortins parte da questão da Migração e da Diáspora enquanto formadoras de uma Identidade em suspenso. Neste sentido, a temática da travessia, nas suas dimensões políticas, sociais e ecológicas, é transversal a toda a sua produção, que abrange fotografia, pintura e performance.

A série aqui apresentada, Khôra, é um projecto de fotoperformance realizado entre 2015 e 2020 com comunidades de imigrantes, refugiados e outros grupos socialmente excluídos de Barcelona e Belgrado, e de Senador Pompeu, Redenção e vários bairros da periferia de Fortaleza, no Brasil.

A condição de migrante acarreta a experiência de uma identidade desfasada de um lugar. Desta privação ou não identificação com o território resulta um estado de permanente suspensão (reforçado pelo facto de ser remetida, frequentemente, para espaços provisórios, como campos de refugiados), tornando a pessoa migrante vulnerável ao preconceito e exclusão social, privando-a dos direitos básicos de cidadania. Em última instância, a condição de estrangeiro acarreta a negação da sua humanidade.

É este estado de intervalo que a artista definiu como Khôra. Tomado de empréstimo da Filosofia, este termo é originalmente encontrado no Timeu, de Platão. Aqui, Khôra é tido como um espaço de diálogo, um tempo em suspenso, resultado da dialética entre o sensível e o inteligível, por onde tudo passa, mas nada é retido. Jacques Derrida utiliza o termo no sentido de alteridade “lugar para ser”; e Martin Heidegger designa-o como uma “luminosidade”, em que o ser ocorre ou tem lugar.

O conceito de Khôra liga-se, portanto, às ideias de impermanência e alteridade: um tempo e espaço de trânsito, incaracterísticos e despersonalizados: um não-lugar.

As fotografias de Maíra Ortins apresentam-nos imigrantes e refugiados de diversas nacionalidades, fotografados em contexto de trabalho ou lazer, acompanhados por uma figura com máscara. Noutras imagens, encontramos esta figura em espaços de ruínas, originalmente criados para receber e confinar migrantes do interior do Brasil, estrangeiros na sua própria terra. Aqui, o personagem torna presente a ausência: de corpo, de voz e de lugar, de quem por ali passou.

A personagem de máscara é Judith, figura arquetípica criada pela artista, e que parte da associação da travessia do migrante à mitologia grega, e à viagem em direcção ao Hades. Judith é, em certo sentido, o barqueiro Caronte, que guia as almas através dos rios Estige e Aqueronte, mas é também o traficante, que transporta vidas humanas para a Europa. O seu destino não é, contudo, o inferno, mas a consequência de uma Necropolítica internacional.

Usando máscaras que remetem para outras culturas que não as das comunidades representadas, Judith torna-se, assim, um corpo estranho das situações fotografadas, invertendo o sentido de “estrangeiro” que estas pessoas conhecem do seu dia-a-dia, reenquadrando o território, e como tal, conferindo-lhes um novo sentido de identificação com o lugar.

Jorge Catarino

Crítico de arte, Lisboa, 2022.

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Bairro Raval, Barcelona, 2015
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Bairro Raval, Barcelona,2015
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Bairro Gótico, Barcelona, 2015
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Bairro Raval, Barcelona, 2015
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Bairro Raval, Barcelona, 2015
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